Março: mês da mulher ou das mulheres?

O dia 8 de março é o Dia Internacional da Mulher e, por isso, março é considerado o mês da mulher. Conquistas são celebradas, injustiças são criticadas e a necessidade de avanço é confirmada. Porém, depois de muita pesquisa, trabalho e reflexão, entendo que este mês que agora começa precisa ser o mês das “mulheres”. Bom, é possível notar que a igualdade entre mulheres e homens é um dos temas mais relevantes atualmente e que vem sendo defendido pelas maiores instituições nacionais e internacionais. Sua efetivação gera justiça social, respeito às leis, produtividade e crescimento econômico. O movimento por igualdade de gênero está nas redes sociais, nas revistas e jornais, nas conversas, na cerimônia do Oscar, no dia a dia no trabalho, nas escolas, na TV.

O que pode parecer moderno e atual é, na realidade, um movimento muito antigo. Sim, este movimento tem origens históricas e seu entendimento possibilita não apenas a real compreensão do cenário das desigualdades que ainda persistem, como também a identificação das alternativas mais eficientes para reduzir as desigualdades. É importante frisar que o tema da igualdade de gênero é resultado de muito estudo, trabalho e pesquisa. É um tema multidisciplinar: profissionais de diversas áreas se dedicam à promoção de igualdade de gênero no trabalho, na política e em diversos setores da sociedade. E vale sempre destacar que quando planejamos ações num projeto importante (como este, o da igualdade de gênero!), buscamos especialistas na área, pessoas que entendam profundamente do assunto. Como destaca Luana Genot, nós investimos no que valorizamos! Logo no início da minha pesquisa em Equality Law, desenvolvida ao longo de quase três anos na progressista cidade de Manchester, Inglaterra, a frase de um artigo acadêmico teve um impacto determinante no meu trabalho (e porque não dizer, na minha vida). Sueli Carneiro, comparando o “mito da fragilidade feminina” com a realidade de mulheres negras no Brasil, determina: “[M]ulheres [negras] que não entederam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar” (Carneiro S, 2003).

Lembro desta frase diariamente quando estou trabalhando por mais igualdade de gênero no trabalho, planejando uma apresentação, um workshop ou dando suporte para uma empresa numa iniciativa no tema. Destaco, sempre, a frase de Sueli Carneiro ao longo da minha consultoria por igualdade de gênero no trabalho.  E, por quê? O movimento de mulheres que se intensificou na década de sessenta é sempre muito lembrado. E realmente precisa ser! Este movimento, legítimo e importantíssimo, impactou positivamente a vida de todas as mulheres. Em minhas palestras e reuniões, sempre destaco que muitos dos direitos de que usufruímos hoje são fruto também da luta dessas mulheres. Com o Estatuto da Mulher Casada e a chegada da pílula anticoncepcional no Brasil em 1962, muitos espaços e direitos foram conquistados. Temos que lembrá-los e valorizá-los sempre para que o avanço continue. Mas olhar apenas esta parte da história seria cair no risco da história única. Em seu livro “O perigo de uma História Única” (2019), Chimamanda Ngozi Adichie traduz de forma clara (e encantadora) o quanto estamos todos sujeitos a fazer julgamentos estereotipados.

Em minha pesquisa, identifiquei que de acordo com o primeiro censo realizado no Brasil, 82% dos operários de fábricas eram mulheres. Sim, mulheres pobres sempre trabalharam no Brasil. Outro fato: mulheres negras sempre trabalharam, desde o Brasil colônia, no horror que a escravidão representou no Brasil por mais de 300 anos.  Ou seja, mulheres sempre trabalharam, mulheres foram escravizadas e mulheres também lutaram pelo direito de trabalhar. É preciso escutar, contar e se basear em multiplas histórias na construção de um projeto efetivo de igualdade para mulheres. Como os estudos apontam, não existe uma mulher universal. Se hoje mulheres são livres, CEOs de empresas, diretoras de filmes, presidentes de países; se mulheres hoje são cientistas competentes que sequenciaram o genoma do coronavirus é porque movimentos de mulheres (sim, no plural), antigos e constantes, vem questionando injustiças e exigindo mudanças ao longo da história. Algumas mulheres foram mais ouvidas que outras. Umas têm mais visibilidade que outras.

Reconhecer este fato (e questioná-lo, claro!) e entender as origens da desigualdade de gênero no Brasil são os primeiros passos para aprofundar o debate e trabalhar por ações efetivas.  Por isso, março deve ser o mês de todas as mulheres. Para que todas possam falar e ser ouvidas. E para que todas as perspectivas e trajetórias sejam valorizadas na busca de soluções. No meu trabalho (e na minha vida pessoal também), esse é um alerta que está sempre ligado.

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