Igualdade de Gênero, Pesquisa, Coronavírus e Investimento

Neste momento de trabalho em casa, ou home office (para os privilegiados, é importante registrar), há tempo para leitura, calls, vídeos e reflexões. A tecnologia pode ser uma aliada! É tempo também de rever o cuidado, a empatia e solidariedade. É tempo de cuidar da casa e da família e de valorizar esse trabalho fundamental que, para muitos, parece invisível (meu próximo artigo vai falar sobre este tema).

Hoje, eu decidi escrever sobre a relação entre alguns fatos atuais (e globais) com dados da minha dissertação de mestrado em igualdade de gênero no trabalho, que desenvolvi em Manchester, Inglaterra. Na minha pesquisa, eu examinei o cenário de desigualdade de gênero em vários aspectos ligados ao trabalho, as origens do problema no Brasil e as alternativas para diminuir as desigualdades. São diversos os obstáculos enfrentados pelas mulheres e o teto de vidro (glass ceiling) merece destaque. Utilizado pela primeira vez em 1986, este termo é consequência de preconceitos enraizados na sociedade que tem como padrão o homem branco. Este fenômeno é como uma barreira invisível que impede as mulheres de alcançarem as posições de maior prestígio. E vale sempre registrar que os obstáculos para as mulheres negras são maiores.

Agora, vamos falar de pesquisas. De acordo com o Gender in the Global Research Landscape, publicado em 2017, as mulheres compõem 49% dos pesquisadores no Brasil. No relatório, foram considerados pesquisadores aqueles quetiveram publicações indexadas em bases de dados relevantes (como Scopus e Elsevier) entre 2011 e 2015. Há motivos para comemorar uma vez que no período anterior (entre 1996-2000), o mesmo relatório indicava que o percentual de mulheres pesquisadoras era o de 38%. Entretanto, vale avaliar dados referentes à distribuição de bolsas de pesquisa pelo CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) que tem por objetivo “fomentar a pesquisa científica, tecnológica e de inovação e promover a formação de recursos humanos qualificados para a pesquisa, em todas as áreas do conhecimento”.Considerando as bolsas PQ1A (as com maior financiamento), 75,4% são destinadas aos homens, enquanto as mulheres recebem apenas 24,6%. Esses dados mostram que a mesma dificuldade que mulheres enfrentam nas empresas, na política e na vida profissional de uma maneira geral, onde são minorias nos postos mais altos, ocorre na pesquisa. As razões são muitas e precisam ser discutidas por uma questão de justiça, respeito às leis e produtividade. E também por uma questão de desenvolvimento das melhores ideias.

Neste momento de crise global, que o Brasil reconheceu e celebrou o trabalho das cientistas brasileiras que sequenciaram o genoma do coronavírus em tempo recorde; no momento que o mundo se une no combate ao coronavírus, é preciso olhar com atenção, reflexão e ações para mudar dados como este. Já está provado que a diversidade garante que muitas perspectivas e idéias sejam trazidas para a mesa. É preciso que todos os talentos tenham as mesmas oportunidades. Estudos comprovam que empresas com mais mulheres em posições de liderança são mais eficientes e lucrativas. Sociedades com mais igualdade de gênero beneficiam a todos.

No artigo “Do us a favor”, publicado na prestigiada revista Science, em 13 de março, H. Holden Thorp condena a falta de investimento, cortes e desvalorização da ciência pelo atual governo norte-americano. E afirma: “Now, the president suddenly needs science” (algo como: Agora, o presidente de repente precisa de ciência).  Quando valorizamos algo, investimos. Isso vale para vida pessoal, por exemplo, quando precisamos de um bom médico. Vale para a vida profissional, quando empresas buscam profissionais capacitados. Vale para governos, quando investem no que a sociedade mais necessita. Acredito que esse momento duro pode trazer a reflexão de que é preciso investir em pesquisa, em ciência, em igualdade de gênero, entre outros temas também fundamentais. Precisamos hoje e sempre de várias perspectivas, ideias e soluções.

Diversidade traz soluções mais eficientes. E precisamos de eficiência, de justiça e de produtividade.

Neste momento que o mundo inteiro sofre com o coronavirus, sugiro a reflexão. Seguida de ação, claro! E pelo menos por um bom tempo, dentro de casa!

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